Artesão das cores e do som
- Denyze Nascimento

- 5 de dez. de 2015
- 4 min de leitura
Atualizado: 25 de jul. de 2023

“Você tem que criar a confusão sistematicamente, isso liberta a criatividade. Tudo o que é contraditório cria vida”. Foi com essa ideia, de Salvador Dali, que o artista plástico Malaquias Belo deu os primeiros passos rumo à carreira artística e a uma existência multifacetada. “Na infância, antes de ir à escola, eu costumava desenhar em cadernos, nas paredes e nos muros da casa onde morávamos, no interior de Minas Gerais. Quando mudei para cidade, vi quadros de santos na parede da casa de uns familiares. Assim ocorreu meu primeiro contato com uma obra de arte. Não deu outra, parti para descobrir o processo da pintura logo cedo”, recorda.
Na infância havia na mente de Malaquias um universo cheio de cores e formas ansiado por ser matizado. “Eu fazia minhas fórmulas mágicas, oníricas, fantásticas... As pessoas, inclusive professores, admiravam o que eu fazia, mas não conheciam a linguagem. Na época, até fiz uma exposição de desenhos na escola. Esse fato deu a mim um destaque muito grande na instituição em que eu estudava, com isso, fiquei envaidecido.
Todavia, somente quando vim para Goiânia, em 1972, pude descobrir os mestres do surrealismo como René Magritte, Salvador Dalí, Max Ernst e Giorgio de Chirico. A partir daí, entrei de coração nessa linguagem e nunca mais saí. Aprendi paulatinamente a construir minhas próprias telas, até hoje sou eu quem faço. Trabalhei bastante e fui aprendendo sozinho. Enfim, sou autodidata mesmo”, comenta.
Apesar da paixão pelo surrealismo, Malaquias transitou por outros campos desenvolvendo diferentes técnicas e estéticas. “Durante a minha trajetória artística eu procurei outros materiais, fato inclusive muito bem-aceito pela crítica especializada. Porém, acabei voltando à pintura em tela, dentro da linguagem que desenvolvi”. Independente do talento e das técnicas inovadoras, o objetivo de Malaquias nunca foi ganhar dinheiro.
"Minha sede mesmo, a minha verdadeira inspiração, era construir o belo, acho que por vaidade pura. Na pintura vi a oportunidade de concretizar minhas projeções. Os leigos, que conhecem alguma coisa do surrealismo, e os críticos especializados veem minhas obras e logo lembra-se de Dalí. Mas, na verdade, tenho mais uma linguagem Magrittiana. Hoje, depois de conquistar identidade artística própria, procuro fugir do paralelismo com esses grandes mestres”, salienta.
Embora não tenha cursado artes, Malaquias despontou no início da carreira como uma grande promessa. “Quando pensei em fazer faculdade, disseram que não valeria a pena, porque eu seria professor dos professores. Na ocasião, eu era muito admirado pela condição técnica desenvolvida e pela visão estética difundida na minha obra. Na época, eu tinha em torno de 25 anos e vivia correndo atrás de premiação, reconheço que por pura vaidade. O pedantismo é bom por elevar a autoestima, nos alavancar e motivar o crescimento e o progresso. Se não houver vaidade, o trabalho estaciona e não avança”, acredita.
Se não houvesse a necessidade de sobrevivência, Malaquias viveria somente para a arte. “Meu maior desgosto era ter que ficar em algum emprego e deixar a arte em segundo plano. Cheguei a trabalhar como publicitário e fui artista gráfico por muitos anos, antes de surgir a informática. Cheguei inclusive a ser agraciado com vários prêmios. Após a chegada da internet, muitos colegas abriram empresas, todavia, preferi seguir fiel aos meus desígnios e minhas aspirações artesanais. A pintura, a meu ver, é algo que emana do sentimento, da mente, do anseio... As inspirações surgem uma atrás da outra, se eu não concluir e materializar essa energia, é como se eu deixasse de concluir uma etapa da vida”, declara.
Na gênese da carreira, Malaquias Belo almejava as premiações e os salões de arte, no entanto, o amadurecimento artístico fez ele desenvolver outros pensamentos. “Hoje não dou valor nenhum a isso, não correria atrás de nenhuma conquista nesse aspecto. Minha realização maior é elaborar uma temática, fazer uma conexão exata com a estética desenvolvida por mim, fazer um conjunto de obras e exposições para mostrar ao público. Essa é a minha principal conquista”, destaca.
Com quase quatro décadas de carreira, desde a primeira exposição, Malaquias mantém-se sereno e modesto em relação ao seu trabalho. “Todo artista gosta de exibir um currículo extenso. Eu tenho o meu por conta de burocracias, pois muitas empresas e entidades de artes pedem. No entanto, não acho que o currículo seja algo crucial. O que vale para mim é a expressividade da obra de cada artista. Se eu for citar tudo que eu já fiz, não daria conta.”
Um dos vários momentos marcantes da vida artista de Malaquais foi a participação dele no Salão Nacional do Rio de Janeiro, no salão da Funarte e na Bienal Nacional de Goiânia. Todavia, o talento do artista plástico não se limita à pintura. Atualmente ele tem construído violinos e rabecas, artefatos atualmente muito difundidos no Brasil. “Quando eu morava na zona rural, era tradição as pessoas tocarem algum instrumento. Como eu não sabia, meu pai me ensinou a fazer violinha. Fui desenvolvendo a técnica e logo estava construindo violino. Mas o violino é meio complexo, por isso o que me dar mais satisfação é construir rabecas, por ter uma criação livre”.
Recentemente, no mês de outubro, Belo expôs, na Vila Cultural, As Cores do Som. Na mostra, apresentou O Ciclo da Criação, trabalho em que vem mantendo a marca expressiva de sua obra, eternizando imagens extraídas dos porões da mente sob a ativação irracional do inconsciente.
Matéria escrita para revista Condomínios Horizontais, agência Contato Comunicação.
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